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Simpósio aborda desafios do envelhecimento ativo

Um dia todo de muito aprendizado sobre quatro pilares do envelhecimento ativo – Cuidados, Informática, Preconceito e Saúde Mental. Foi o que vivenciei ontem acompanhando a terceira edição do Simpósio USP Rumo ao Envelhecimento Ativo, realizado no auditório István Jancsó, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin, na USP. Entre os muitos especialistas presentes, destaque para o encerramento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que no próximo mês completa 88 anos, e José Gregori, que foi ministro da Justiça e fez 88 no ano passado. “Eu tento viver com o máximo de energia que eu posso o momento que eu estou vivendo e pensar no momento do passo seguinte, no que vou fazer amanhã e ter sempre projeto”, afirmou o presidente.

Um grande público acompanhou o evento, que foi aberto discutindo o envelhecimento e o cuidado, com mediação da profa. dra. Monica Sanches Yassuda, diretora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP. A profa. dra. Monica Perracini, do programa de Mestrado e Doutorado em Fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), destacou a tecnologia, que, segundo ela, cada vez mais é uma importante ferramenta para viver melhor. A longevidade vem atraindo a atenção de startups, com a criação de produtos e serviços que trabalham questões como smart homes (casas inteligentes) e dispositivos de segurança, assistentes digitais de saúde e o acompanhamento social e cognitivo. Para ela, a tecnologia pode ajudar, mas não deveria substituir o contato, que transforma quem recebe e quem oferece o cuidado.

Primeiro módulo contou com as professoras Monica Perracini, Monica Yassuda, Marília Berzins e Rosa Chubaci (Fotos: Katia Brito)

A profa. dra. Rosa Yuka Sato Chubaci, do bacharelado em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP, teve como missão desmistificar o cuidado nas instituições de longa permanência para idosos (ILPI). De acordo com ela, estas instituições, antes conhecidas como asilos e hoje chamadas de residenciais, ainda carregam o estereótipo de abandono, mas não indicam necessariamente a exclusão do idoso do contexto social, nem ruptura dos laços sociais e familiares, desde que tenham um ambiente adequado, uma equipe preparada e atividades que atendam às especificidades dos idosos.  

O papel do cuidador foi abordado pela profa. dra. Marília Viana Berzins, presidente do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE) e coordenadora do curso de formação de Cuidador de Idosos oferecido pela ONG. Ela destacou a importância do cuidado, que é uma consequência da longevidade, e a importância da regulamentação da profissão.

Tecnologia

O segundo módulo, mediado por Sérgio Werther Duque Estrada, embaixador do Aging 2.0 São Paulo, foi dedicado à informática. Fabio Ota, CEO da International School of Game, a IS Game, apresentou o trabalho da empresa que ensina adultos 50+ a desenvolver games, contribuindo para o desenvolvimento do raciocínio lógico e a prevenção do declínio cognitivo. O projeto que funciona na Unicamp e tem unidades em São Paulo, foi financiado pela Fapesp. O principal desafio, segundo ele, foi e ainda é o preconceito por parte dos próprios idosos, por isso deve começar a ser trabalhado como projeto Cérebro Ativo, uma academia de ginástica cerebral.

Tecnologia foi o tema abordado por Fabio Ota, Sérgio Duque Estrada, Gláucia Alvarenga e Mórris Litvak

A gerontóloga Glaucia Martins de Oliveira Alvarenga abordou os impactos das redes na redução dos riscos de isolamento e solidão. Sua pesquisa indica que com a maior integração, os idosos descobrem novas habilidades. A inclusão digital provoca a atualização e compartilhamento, criando também novas redes de suporte.

A relação com o trabalho foi destacada por Mórris Litvak, fundador da Maturijobs, plataforma digital que faz a ponte entre empresas e profissionais 50+, também com foco na capacitação, encontros presenciais e que deve lançar a Maturiservices para que as pessoas possam oferecer seus serviços de forma pontual para empresas e pessoas físicas. Litvak tratou da necessidade de estar atualizado para manter-se relevante no mercado de trabalho após os 50 anos. E para as empresas, o desafio é enxergar o potencial deste público. Para ele, a tecnologia precisa ser vista como aliada, não como barreira.  

Preconceito

O módulo sobre preconceito marcou o retorno do evento no período da tarde, com a mediação do prof. dr. Egídio Lima Dórea, organizador do simpósio e coordenador da USP Aberta à Terceira Idade. O prof. dr. Jorge Felix, do Centro de Estudos da Economia da Longevidade, abordou a tradução do termo “ageism”, criado pelo psiquiatra americano Robert Butler, em 1968. Felix defende que o mais adequado seria adotarmos como “idosismo”, e não “ageísmo” como é utilizado hoje. O termo atual, segundo ele, retira a ênfase da pessoa idosa, nega a velhice, não caracteriza a estigmatização e fragiliza o sujeito político na esfera pública.

Egídio Lima Dórea (no centro) mediou o módulo com Izabela Toledo, Jorge Felix e Ana Cláudia Bonilha

A consultora organizacional psicodramatista, Izabela Toledo, da FESA Group, trouxe o exemplo de seu avô Celso Falabella de Figueiredo Castro, que faleceu aos 103 anos, e foi lúcido até os cem, para tratar o preconceito no mercado de trabalho. Contando a história do avô, ela destacou as competências que ele tinha e hoje são exigidas pelo mercado: adaptabilidade e resiliência, curiosidade pela vida e aprendizagem, coragem para experimentar e mudar, e relacionamento, sentido de pertencer. Para ela, é preciso vencer os nossos próprios preconceitos, vencer a dificuldade de lidar com o desconhecido, e encarar o novo como uma possibilidade de aprender algo diferente.

O preconceito nas instituições de saúde foi destacado pela profa. dra. Ana Cláudia Bonilha, doutoranda em Saúde Coletiva. De acordo com ela, é preciso ajustar o modelo de atendimento ao idoso, rever valores e crenças que causam a discriminação etária e formar profissionais capacitados. Ana Cláudia usou o termo “gerontofobia sanitária” para a aversão do idoso no campo da saúde, que resulta na generalização de dores, uma investigação pouco minuciosa dos sintomas e o preconceito em diagnosticar doenças sexualmente transmissíveis.  

Bem-estar                                                 

Dórea também foi moderador do módulo inicialmente chamado de Saúde Mental, mas renomeado por ele de Bem-estar. A profa. dra. Vera Brandão, da PUC-SP, abordou o envelhecimento como o processo da vida; longevidade, a perspectiva de uma vida mais longa, o longeviver; espiritualidade, como sentido de vida, a capacidade de dialogar com o eu profundo e entrar em harmonia com os apelos que vêm da interioridade, citando o padre Léo Pessini, e religiosidade, termo para as religiões instituídas, como cristianismo e judaísmo. Vera destacou que é preciso respeitar o poder das crenças e utilizá-las para acelerar a cura e a recuperação de idosos.

Rui Afonso, do Grupo de Bem-Estar e Práticas Contemplativas do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, abordou meditação, qualidade de vida e estresse. Segundo ele, um novo estilo de vida, atividade física e alimentação pode retirar a pessoa do envelhecimento mal sucedido, assim como o estresse pode causar ou agravar a maior parte das doenças e são muitos os estímulos que “agridem o organismo”, como trânsito e excesso de trabalho. Ele ressaltou os aspectos positivos da atenção sustentada na prática contemplativa, quando a pessoa se concentra e relaxa a lógica, ou seja, não analisa, não julga e não cria expectativas.

Exemplos

E para o encerramento, o tema “Envelhecimento e Propósito”, contou com a participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de José Gregori (clique para assistir trechos da palestra). “São as coisas realmente importantes que ficam, elas é que dão saudade. Então de repente você vê que o sorriso que uma criança deu num determinado momento é uma coisa insubstituível, e que a recordação desse momento faz você esquecer o que você acabou de ver e ouvir no Jornal Nacional”, disse Gregori. Para ele, o momento é de requalificar, redimensionar, repensar as coisas, e perceber que ao que se dedicou, os Direitos Humanos, valeu a pena.

José Gregori, Fernando Henrique Cardoso e Egídio Lima Dórea encerraram o evento

Para o ex-presidente, a vida é feita de acasos, acasos que o levaram a Presidência após realizar seu sonho de ser professor na USP e em outras instituições. Ele destacou a importância de dar sentido a vida, viver a plenitude de cada momento, manter uma jovialidade espiritual, a capacidade de entender o que está mudando, diante das enormes  transformações do mundo, e em vez de pensar no que passou, ficar aspirando o que vai acontecer, o que pode ser feito e fazer com satisfação. (Katia Brito)

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