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Seminário debate tempo, saúde e envelhecer LGBT

Evento online promovido pela Associação EternamenteSOU e o Sesc Pompeia debateu temas importantes para as muitas velhices

Tchaka Drag Queen e Carlos Eduardo Henning - Seminário Velhices LGBT

Inquietar pessoas e governos e abrir caminho, mesmo que de forma gradativa e lenta, para a criação de políticas públicas para as velhices LGBTI+ são os objetivos da Associação EternamenteSOU. Em parceria com o Sesc Pompeia, na semana passada foi realizado a quarta edição do Seminário Velhices LGBT, totalmente online. Foram dois dias de muito aprendizado, abordando questões como o tempo, saúde, vulnerabilidade, sexualidade, raça, gênero e diversidade intergeracional. A mestre de cerimônias foi Tchaka Drag Queen, que na imagem principal está com Carlos Eduardo Henning.

Além das palestras, foi preparado um material com artigos dos convidados. O seminário completo pode ser conferido nos canais do YouTube da Eternamente SOU e do Sesc Pompeia. Acesse os artigos referentes ao evento em: https://www.sescsp.org.br/files/artigo/67523303/02e0/46ba/9310/ffd7ada0c8ba.pdf

“O tempo e suas subjetividades” foi o tema da primeira mesa de debate do Seminário. A mediação foi de Carlos Eduardo Henning, professor antropologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), envolvido na temática LGBT de várias maneiras há mais de 15 anos. E os convidados: João Silvério Trevisan, de 77 anos, escritor, jornalista e um dos pioneiros no ativismo LGBT no país, e Letícia Lanz, 67, psicanalista e especialista em gênero e sexualidade.

Henning destacou os desafios da pandemia e da vida das pessoas idosas nesta conjuntura extremamente vulnerável, e também a heterogeneidade das experiências de velhice, suas complexidades e diversidade. O professor salientou a importância de organizações e o ativismo que associa as pautas LGBT e o envelhecimento em uma tentativa de ressignificar positivamente e questionar o preconceito e a desvalorização social.

Paradoxos do envelhecer

Para João Silvério, o envelhecer enche a gente cada vez mais de paradoxos e aumenta o número de perguntas e dúvidas que se acumulam as já existentes. Ao mesmo tempo, que estamos nos preparando para se despedir com a proximidade maior da morte, na verdade vamos descobrindo aspectos novos, uma nova visão também do passado.  

João Silvério Trevisan, Letícia Lanz e Carlos Eduardo Henning

O processo de envelhecer, segundo o escritor, nos apresenta a grande possibilidade de ir desvendando um pouco mais do nosso mistério interior, encontrando novas nuances e sentido em fatos antigos. Ser LGBT, de acordo com ele, implica necessariamente em rupturas, em posições na contramão da cultura consagrada, por isso as vivências se tornam especialmente mais marcantes.

Para as pessoas LGBT, tanto o passado quando o presente e o futuro existem sob a perspectiva do exilio, afirmou João Silvério. São habitantes de um mundo alheio ao heteronormativo, vivendo em estado de diáspora no próprio país. O escritor diz que o pânico do envelhecer é por desconhecimento da realidade do inevitável envelhecimento, com suas vantagens e desvantagens.

Tempo cronológico e kairológico

Letícia Lanz falou sobre cronos, o tempo que passa e divide as coisas em presente, passado, futuro, o tempo inexorável dos relógios. E kairós, o tempo atemporal, flexível e inconstante, onde moram as ideias, lembranças e esperanças. Para ela, o que envelhece é cronos e nada, nem ninguém escapa das leis do tempo cronológico, por isso a tendência que todos se tornem escravos, tentando rejuvenescer ou se achando muito velhos para isso ou aquilo.

Para uma vida mais produtiva e significativa, a psicanalista recomenda reconhecer e assumir tempo kairológico, capaz de nos impulsionar para uma existência livre da ditadura dos relógios, com senso de oportunidade e imaginação criativa.

Saúde e envelhecimento

O primeiro dia terminou abordando a questão da “Saúde e envelhecimento”, com Milton Crenitte, geriatra e pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e Veriano Terto, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). O debate foi conduzido por Guilherme Almeida, doutor em Saúde Coletiva.  

Guilherme defendeu que o envelhecer não deveria ser uma arena de violações, entre elas do direito à saúde, muitas vezes sequestrado da população LGBTI+. Trajetórias marcadas por privação, baixo acesso ao mercado de trabalho, expulsão das famílias originais, violência e mortalidade precoce. Condições que deterioram a saúde mental e levam à precarização da vida. Porém, também são experiências que habilitam a uma maior resistência, que podem contribuir para um envelhecimento mais empoderado.

Milton Crenitte, que também é diretor de projetos da EternamenteSOU, trouxe pontos de sua pesquisa de doutorado sobre saúde e a população LGBT 50+, destacando as barreiras de acesso e a os desafios para os profissionais de saúde. Qualidade de acesso que é ainda pior para pessoas pretas e pardas, com menos exames preventivos, por exemplo, diante de experiências prévias negativas e o medo de discriminação.

Veriano Terto, Milton Crenitte e Guilherme Almeida

O geriatra afirmou que no Brasil ser um idoso ou uma idosa LGBT é um fator de risco para um pior acesso a saúde. Para realmente promover o envelhecimento ativo e saudável, como preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS), e melhorar esse acesso, a chave é a educação continuada de profissionais.

HIV/AIDS

Veriano Terto abordou o “Envelhecimento em (novos) tempos de HIV/AIDS: problematizações geracionais de uma epidemia interseccional”. Militante gay, que vive com HIV/AIDS e recentemente completou 60 anos, relembrou que nos 1980 as primeiras análises epidemiológicas de risco apontaram os grupos de homossexuais masculinos. No entanto não é possível reduzir e pensar somente nestas populações, há outros fatores de risco para o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Outro ponto destacado por Veriano foi a falta de pesquisas e abordagens sobre corpo e saúde no envelhecimento, principalmente em pessoas que usam retrovirais há 20, 30 anos. Como fica essa farmacopeia quando se junta aos medicamentos de doenças associadas ao envelhecer?

O vice-presidente da ABIA também falou do medo da testagem, não apenas pelo diagnóstico em si, mas por uma reclassificação identitária. Medo de ser tratado por uma identidade com que não se identifica totalmente. Segundo ele, há novos medicamentos, novas formas de testagem e novas maneiras de pensar a saúde, muito pouco discutidos com a população. Informações que precisam ser debatidas.

Há ainda a questão do luto e o complexo de sobrevivente – por que eu não morri? -, que se associa aos lutos do envelhecer. E como se fosse um processo natural, a orfandade tardia de quem perde o pai ou a mãe e precisa recompor valores e a ideia de família. Veriano abordou outros pontos, como as pessoas que se retiram do mundo LGBT ao envelhecer, procurando maior possibilidade de afeto e menos competição por sexo e padrões de beleza.

Veja também no blog Nova Maturidade os destaques do segundo dia da quarta edição do Seminário Velhices LGBT!

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