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Mulheres idosas ainda têm muito a alcançar

Entrevista com Lucila Egydio, mestre em Gerontologia, que destaca os desafios e avanços para o envelhecimento feminino

Dia Internacional da Mulher - mulheres idosas - desafios e avanços

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março, é marcado por desafios e avanços, especialmente para as mulheres idosas. “É fato que ainda temos muito a conquistar para alcançar níveis justos e equilibrados que contribuam para o envelhecimento feminino saudável no Brasil. Por outro lado, temos que lembrar que se formos rever todo o processo civilizatório, as conquistas alcançadas até aqui foram intensas e muito recentes”, destaca Lucila Egydio, bióloga, especialista em ecoturismo e mestre em Gerontologia (EACH-USP), cuja área de pesquisa é o envelhecimento feminino.

Lucila explica que “se refletirmos que o marco do início consistente das conquistas femininas é o movimento sufragista, datado a partir de 1897, estamos falando de tempos relativamente recentes na história do avanço dos direitos humanos, mesmo que lembremos que a discussão acerca dos direitos políticos femininos foi trazida à baila em 1791 pela escritora Olympe de Gouges, com a ‘Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã’, pelo que foi condenada à morte”. Para ela, “é muito importante reconhecermos que sim, conquistamos avanços, mas que devemos seguir incansáveis, pois ainda há muito por alcançar”. Veja mais nesta entrevista especial.

Nova Maturidade: Quais fatores contribuem para a predominância de mulheres entre a população idosa?

Lucila Egydio - mestre em Gerontologia

Lucila Egydio: Este tema já chama atenção há algumas décadas, pois é inegável o forte componente de gênero do envelhecimento, já que existe uma mortalidade diferenciada entre homens e mulheres. A menor mortalidade feminina explica essa diferença, ou seja, no Brasil e no mundo, quanto mais velho for o contingente estudado, maior será o número de mulheres. Este fenômeno é chamado de feminização da velhice.

Em 2006 Ana Amélia Camarano, pesquisadora cujo foco são estudos populacionais e arranjos familiares, com ênfase em envelhecimento populacional, já indicava que que este fato se deve a comportamentos específicos do homem e da mulher: mulheres frequentam mais os centros de saúde, homens estão mais expostos a acidentes de trabalho e de trânsito e somam-se à prevalência de alcoolismo, drogas e tabagismo – vícios que afetam também mulheres, mas em menor proporção.

NM: Quais os principais desafios para as mulheres idosas hoje?

Lucila: Em minha pesquisa de mestrado fiz levantamentos teóricos e também a sistematização a partir das falas das idosas do projeto Bairro Amigo do Idoso da Mooca e do Brás. A teoria reunida já aponta, entre outros fatores, que estas mulheres têm maior tendência a ficar em situação socioeconômica desvantajosa e morando sozinha, passar por maior debilidade física antes da morte, receber aposentadorias de valor mais baixo, além de fato de que as mulheres se tornam mais vulneráveis na velhice devido à ditadura da juventude imposta pela sociedade em que vivemos.

O estudo das falas femininas do projeto Bairro Amigo do Idoso revelou que os principais temas abordados por elas são segurança e mobilidade urbana, pois são aspectos que interferem em sua qualidade de vida, dada a necessidade e a vontade de seguirem ativas e participativas socialmente. Ou seja, existe a demanda para que seja viável que mulheres idosas usufruam de uma relação saudável e equilibrada com seu entorno, com sua cidade, seus espaços e lugares. A imagem da vovó do tricô está cada vez mais distante da realidade. A velhice feminina hoje é vista como tempos de libertação e de reencontro com a essência feminina de cada uma.

NM: Outro problema é a violência doméstica?

Lucila: A violência doméstica é outra questão ainda muito presente e foi intensificada durante a pandemia, quando aumentou o volume de denúncias, além de compelir vítima e o agressor a permanecerem no mesmo ambiente, o que resultou em violações diárias dos direitos dessa parcela da população. Infelizmente é um ponto de preocupação ainda muito relevante.

NM: Neste Dia Internacional da Mulher, os olhares se voltam para a valorização da mulher, mas pouco ou nada se fala sobre a mulher idosa, por que isso acontece?

Lucila: Aqui é importante trazer à tona alguns temas que hoje estão efervescentes, mas ainda no início de um debate mais amplo e consistente: a ditadura da juventude e a interseccionalidade. Ao abordar o envelhecimento feminino costumo abordar o corpo, as questões psicossociais e a evolução de políticas públicas para a mulher idosa. Ao falar do corpo é importante nos perguntarmos: por que não se fala em menopausa como se fala sobre menstruação e gravidez, por exemplo?

A mulher sofre ao longo da vida a pressão para cumprir papeis sociais e atender expectativas da sociedade, mas principalmente, para se manter jovem e atraente. Hoje começamos a ver movimentos para valorização da ‘estética prateada’, mas ainda é um movimento incipiente. A cobrança por corpos durinhos e pelo banimento de cabelos brancos segue forte.

A menopausa neste cenário é o sinal mais evidente de que o corpo envelheceu e, portanto, este tema fica escamoteado ao longo das vidas das mulheres, que sofrem no climatério muito mais por desinformação e pela rejeição que sente pelo processo de envelhecimento. É importantíssimo falar mais disso!

NM: Elas ainda acumulam outros preconceitos?

Lucila: O idadismo vigente é evidente e, quando se agregam camadas a este fator, temos a intersecção e preconceitos, ou seja, além dos estigmas por ser idosa, a mulher carrega os estigmas por ser mulher e ter sofrido uma série de preconceitos no curso de sua vida. Como ainda estamos muito aquém de oferecer tratamento digno tanto para idosos como para mulheres, as mulheres idosas enfrentam desafios cumulativos. Quando a estes fatores se agrega camadas de raça e cor, isso fica ainda mais agravado. Daí ser essencial tratar o tema da interseccionalidade, que aponta para a sobreposição dos vários sistemas de opressão que se relacionam e se sobrepõem.

NM: Quais ações poderiam ser feitas para que a mulher idosa também esteja em evidência?

Lucila: Participação social é um aspecto muito relevante para que o tema alcance a evidência necessária para que a sociedade compreenda a relevância da mulher idosa e suas necessidades. O conceito de envelhecimento ativo não se refere somente às questões físicas, mas à efetiva participação dos idosos nas questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis.  Estudos começam a apontar para a maior atuação de mulheres idosas em instâncias de participação e evidenciam que, neste grupo, o fato de ser mulher e ser casada estão correlacionados com níveis mais altos de participação social.

Ou seja, o amadurecimento sobre a importância de conselhos, fórum grupos e movimentos deve ir além da simples interação social, mas também trazer à tona os temas que limitam o envelhecimento ativo, até mesmo para eu haja legitimidade das propostas, pois é importante lembrar que se deve tratar das questões sobre idosos com a presença e contribuição dos idosos. Jamais devemos falar e conduzir ações sobre elas e eles sem a presença deles.

NM: As políticas públicas para mulheres idosas têm avançado?

Lucila: Infelizmente estamos vivendo um cenário de destruição tanto das instâncias de participação social como de retrocesso em conquistas já alcançadas. O machismo estrutural e o idadismo atravancam avanços consistentes e esta temática não é prioritária. No entanto se percebe que há maior receptividade à temática, seja pela sociedade ou pelo poder público, que se mostram mais sensíveis e atentos. Temos visto também um recrudescimento do tema na mídia, com a adesão de celebridades, mas também e grupos organizados, com apoio de especialistas no tema, contando com a aproximação da academia.

NM: Como colocar o tema do envelhecimento em pauta?

Lucila: O tema do envelhecimento é pauta importante sob variadas óticas, mas avanços precisam ser buscados e, dado o cenário refratário à participação social, vejo que o momento é de estudar, debater e estruturar pautas para cobrar os eventuais candidatos sensíveis ao tema para abraçá-los em suas campanhas. Não esqueçamos que estamos em ano eleitoral! É momento de começar a organizar um forte trabalho de advocacy, que deve ser pautado por dados e informações confiáveis, para que a indução e políticas públicas seja conduzida de forma integrada, consistente e legítima.

(Imagem principal: Old woman photo created by pressfoto – www.freepik.com)

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