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Histórias de resistência no Seminário Velhices LGBT

Resistência, superação e um legado de esperança certamente resume bem a história construída pelo movimento LGBT no Brasil, e não à toa foi o tema escolhido pela ONG Eternamente SOU para a terceira edição do Seminário Velhices LGBT, realizado na semana passada no Sesc Pompeia, em parceria com o Sesc e a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo. Na noite de quinta-feira, dia 26 de junho, aproximadamente 700 pessoas acompanharam a abertura com o show de Daniela Mercury. E na quinta-feira, ao longo do dia, a programação de palestras, bate-papos e apresentações culturais lotou o teatro do Sesc.

Infelizmente não pude ir na quarta-feira, mas na quinta só perdi as duas últimas mesas. E como bem disse a cantora e compositora Tabatha Aquino, no vídeo que compartilhei no Instagram do blog, “o dia de hoje foi justamente para gente entender que a gente precisa sim valorizar o que nos temos do lado, valorizar quem plantou o que a gente colhe hoje que é o amor”. O cerimonial do evento foi comandado por Tchaka Drag Queen – A Rainha das Festas.

A mesa de abertura foi coordenada por Ivone de Oliveira, do blog Gata de Rodas, militante pela diversidade sexual e da causa da mulher com deficiência. Entre os participantes, Sissy Kelly, mulher trans que sobreviveu ao regime militar, viveu em Lisboa (Portugal), contraiu HIV e hoje luta pela visibilidade trans na terceira idade e pela população em situação de rua em Belo Horizonte (MG). Segundo ela, 25% da população LGBT vive em situação de rua e a expectativa de vida caiu de 35 para 27 anos.

A população trans, de acordo com Sissy, está envelhecendo sem políticas públicas, sem o mesmo acolhimento que a sociedade destina a pessoa idosa heterossexual, sem o reconhecimento da população LGBT mais jovem, e ainda corre o risco do retrocesso daquilo que já foi conquistado.

Trajetória de lutas

Jordhan Lessa, homem trans e servidor público, escritor, palestrante e transativista pelos direitos humanos, abriu sua fala com um trecho do documentário “Temporada de Caça” (disponível no YouTube), de 1988 da cineasta e jornalista Rita Moreira, que foi as ruas ouvir a população sobre a morte de homossexuais e, infelizmente, não muito diferente dos dias atuais, as respostas eram de apoio aos assassinatos. E lembrou também do caso de Lourival Bezerra, de Campo Grande (MS), que morreu aos 78 anos e demorou seis meses para ser enterrado com a identidade masculina que usava há mais de 40 anos.

Ao longo de sua história, Jordhan, hoje com 52 anos, quatro deles de transição, passou por duas internações em manicômios, foi interno da Funabem (Fundação Nacional do Bem-estar do Menor), expulso de casa e da escola, viveu em situação de rua e sofreu um estupro que gerou seu filho, hoje com 35 anos. “Ter sobrevivido até aqui, já é uma grande conquista”, destacou em sua apresentação, onde também afirmou que o que viveu como Joseli até os 48 anos não pode ser negado, afinal foi o que permitiu que hoje ele seja o Jordhan. Ele conta sua história no livro “Eu Trans – A Alça da Bolsa – Relatos de Um Transexual”, e também é autor de “Quem Somos?”. Veja mais em seu site Jo Lessa.

Eduardo Michels, advogado e militante e ativista dos direitos LGBT, que tem se dedicado a relatórios anuais sobre assassinatos e suicídios da população LGBT no Brasil, também participou da mesa. Para ele, que nasceu nos anos 1950 como Sissy, a homofobia é ensinada desde a infância na escola, na igreja, nas famílias, está incutida na sociedade, assim como o racismo, o machismo e a misoginia (aversão ás mulheres).

Em 2017, quando tinha 61 anos, Eduardo e seu companheiro foram brutalmente atacados e expulsos de onde moravam no Rio de Janeiro por vizinhos, e desde então eles passam por tratamentos de saúde e psicológicos. E coincidentemente ou não desde 2017, segundo ele, os casos de assassinatos e suicídios da população LGBT vem crescendo. Para ele, a solução é enfrentar e seguir em frente mesmo com todas as dificuldades.

Desafios

Quem fechou o primeiro bate-papo foi Marisa Fernandes, mestre em História Social e ativista LGBT, que já foi entrevistada pelo blog no evento Envelhecimento LGBT, realizado no mês de maio no Sesc 24 de maio (veja a matéria no link). Para ela, a população LGBT tem a existência humana negada por violências, discriminações, e na época da ditadura militar, esta “escrotidão” que representavam era reforçada. E apesar dos avanços, como os casamentos e adoções, ainda há muito a ser combatido, como a falta de preparo dos profissionais de saúde para receber este público e os padrões impostos pela sociedade para envelhecer.

“A sociedade que sempre nos negou não acredita que estamos vivos, que não morremos de HIV, em manicômios ou presídios. Somos invisíveis para a sociedade, que não se conforma que estamos vivos. O que é isso senão resistência?”, questionou Marisa, destacando também a importância de uma velhice com o mínimo de dignidade.

Envelhecimento ativo

Depois da mesa, uma palestra breve com sobre os desafios para o envelhecimento ativo com Diego Felix Miguel, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), gestor do Centro de Convivência e Comunicação do Centro de Referência do Idoso da Zona Norte (CRI Norte), órgão da Secretaria de Estado da Saúde, e padrinho da EternamenteSOU, onde atua desde 2017, participando da criação do primeiro seminário.

Envelhecimento ativo foi o tema abordado por Diego, padrinho da EternamenteSOU

O CRI é um ambulatório que presta atendimento para pessoas idosas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). “Nós estamos com um projeto piloto para criar um selo que qualifique como ambulatório amigo da diversidade para que as pessoas idosas ou acompanhantes cuidadores que sejam LGBT possam saber que é uma área livre de preconceitos”, revelou.

Em sua apresentação, Diego abordou o conceito de envelhecimento ativo definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2002, que prevê estratégias que estimulem a participação da pessoa idosa e políticas voltadas para a saúde e segurança. Ele ainda destacou os determinantes do envelhecimento que passam pela diversidade de gênero e cultural, como o acesso aos serviços sociais e de saúde, ambiente físico, o comportamento e as condições sociais e econômicas.

“Não somos iguais. Não dá pra generalizar as velhices”, ressaltou Diego, salientando que é preciso ir além de se colocar no lugar do outro, mas fazer algo em prol dessa pessoa. E não se trata de igualdade, das mesmas oportunidades para todos, mas de equidade, adaptar as oportunidades de acordo com as diferenças para que se tornem justas. Um vídeo do Sesc sobre violência contra a pessoa idosa encerrou a programação da manhã. O Seminário foi maravilhoso e rendeu muito conteúdo que será compartilhado em outras matérias. Confira no blog. (Katia Brito)

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