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EternamenteSOU comemora dois anos na luta pelas velhices LGBT

Equipe da EternamenteSOU no Seminário Velhices LGBT

Novembro é um mês de festa para a ONG EternamenteSOU, que completa dois anos de atividade. Com muito trabalho, cumprem seu objetivo de dar visibilidade para as pessoas idosas LGBTs, proporcionando dignidade para que possam se manter vivos e ativos. Conheci a ONG no Seminário Velhices LGBT (leia mais no blog).  O grande evento comemorativo será a Feijoada com Samba no dia 30 de novembro, a partir das 12h30, no Espaço Muss (Rua Bento de Freitas, República), em São Paulo. Ingressos pelo Sympla (clique aqui). Confira no blog a entrevista com Rogério Pedro, de 29 anos, presidente e idealizador da EternamenteSOU, e Milton Crenitte, 33, diretor de projetos da ONG.

Nova Maturidade: Como surgiu a ideia da ONG?

Rogério Pedro: A ideia de se criar a EternamenteSOU se deu após uma serie de reflexões em meu momento de conflitos e autodescoberta com relação a minha sexualidade. Criado em um lar evangélico, me deparei com alguns questionamentos e fui pesquisando a respeito, o que me levou a preocupação do que é ser uma pessoa LGBT e quais os suportes essa população tinha principalmente ao envelhecer.

NM: Quando o projeto saiu do papel?

Rogério Pedro: Em novembro de 2017, formado por um grupo de pessoas mobilizado pela necessidade de se dar visibilidade para as questões do envelhecimento. Na ocasião promovemos o primeiro seminário Velhices LGTB com o tema “A invisibilidade de um passado histórico a esperança de um futuro de glória”. Com apoio do vereador Toninho Vespoli (PSOL) e sua equipe conseguimos então dar a visibilidade para um tema nunca discutido no Brasil antes. Tivemos o cuidado de convidar figuras públicas das três esferas governamentais, tanto municipal, estadual e federal, e a partir daí não paramos mais.

NM: Que outras ações vocês começaram a realizar?

Rogério Pedro: Começamos na sequência os trabalhos de atenção aos idosos LGBTs. Nossa primeira atividade foi o “Café & Memórias LGBT50+”. Contamos na ocasião com cerca de 30 idosos e durante as discussões foram surgindo outras demandas e necessidades responsáveis pelas demais atividades e ações como atendimento psicológico, expressões corporais, canto e coral, orientação jurídica, visita domiciliar, passeios e cursos de formação como o Papo DiversIDADE e o Curso de Introdução a Velhices LGBT para profissionais que atuam direta ou indiretamente com pessoas idosas, possibilitando capacitação e tornando-os mais acolhedores e atentos as questões da diversidade na velhice.

Participantes de uma edição do Café com Memórias da EternamenteSOU
Participantes de uma das edições do “Café & Memórias”

NM: Como o trabalho da ONG foi evoluindo ao longo desses anos?

Rogério Pedro: Por ter sido a primeira organização/grupo a se preocupar com essas questões, a causa por si só já gera vários olhares de pessoas interessadas nas questões que abordamos, no entanto, o nosso público alvo, os idosos é um desafio. Uma vez marcados pela invisibilidade, o primeiro contato deles com a ONG é sempre de receio. Porém ao ir a nossas atividades e ações, acabam gostando e sendo porta-vozes da EternamenteSOU. E na próxima chama outros amigos e assim vai. O trabalho foi evoluindo à medida com que foram aparecendo pessoas interessadas em apoiar a causa.

NM: O Seminário Velhices LGBT é um dos braços desse trabalho. Como é realizar um evento desse porte?

Rogério Pedro: O seminário é uma das oportunidades que temos de atrair o poder público, estudantes, pesquisadores e demais profissionais interessados nas pautas, temas e propostas, problematizando e dando alternativas para criação de espaços e políticas públicas que atendam as necessidades especificas das pessoas idosas LGBTs no Brasil. A construção do seminário é um baita desafio, principalmente porque envolve valores e quando envolve valores precisamos muito de apoios e patrocínios, porém há poucas pessoas/empresas com interesse em vincular/associar seu nome, marca ou empresa. Em 2019 foi diferente, tivemos empresas que foram essenciais como o Sesc SP, Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, Copastur, Pepsico, Centrape, AccorHotels entre outros.

NM: A quarta edição do Seminário Velhices LGBT já está sendo planejada?

Rogério Pedro: As edições seguintes são sempre planejadas logo no fechamento da que foi realizada e levamos então esse período para a construção. Nossa quarta edição esta quase saindo do forno. Logo mais daremos mais detalhes. O que posso garantir é que será um enorme sucesso se levarmos em consideração as pautas, temas, convidados, palestrantes e artistas. (Na foto principal, a equipe da ONG e convidados da terceira edição do seminário como a cantora Daniela Mercury e a mestre de cerimônias Tchaka Drag)

NM: A EternamenteSOU tem participado de eventos em outras cidades. Vocês pensam em ampliar o trabalho?

Rogério Pedro: Sim, temos percorrido alguns municípios do interior de São Paulo e cidades aqui destacando Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ). Pretendemos nos próximos meses abrir núcleos nessas capitais e assim ampliar nossa atuação. Estamos em busca de parcerias para que isso se torne real.

NM: E o projeto da sede própria como está? Vocês já conseguiram arrecadar os recursos?

Rogério Pedro: O projeto está andando, porém fraco. Estamos reestruturando nossa plataforma e faremos então o lançamento no dia 30 de novembro para que possamos ter o valor mínimo que precisamos para ampliar nossa atuação em 2020. As pessoas interessadas em se tornar um financiador coletivo, poderá fazer por meio da plataforma www.benfeitoria.com/eternamentesou.

NM: Atualmente quantas pessoas participam da ONG e quantas são beneficiadas pelos trabalhos de vocês?

Rogério Pedro: Temos um time de 27 pessoas entre voluntários e estagiários e atendemos cerca de 300 a 400 idosos, que foram impactados de forma direta e indireta por meio de nossa atuação.

NM: O que mudou nestes dois anos?

Milton Crenitte: Acredito que só o fato de estarmos batalhando e ganhando voz em diversos espaços que estamos ocupando já seja um avanço para reduzir a dupla invisibilidade (velhice e identidade de gênero) que as pessoas idosas LGBT estão sujeitas. Porém, ainda há muito a ser feito. Sabemos que são várias as velhices e são diferentes formas de vulnerabilidades, principalmente se lembrarmos de questões socioculturais e do desafio da desigualdade social em nosso país. Recentemente nos foi perguntado sobre quais idosos têm o direito a envelhecer em nosso país, lembrando que a expectativa de vida na cidade de São Paulo pode ter uma diferença de 20 anos em alguns de seus bairros.

NM: Quais são os principais desafios para a conquista da visibilidade e do protagonismo? 

Milton: Tudo começa por reconhecer os nossos locais de fala ou de privilégio e batalhar por um envelhecimento inclusivo para todos. Lutar por visibilidade para as velhices LGBT é também lutar contra o machismo, contra o racismo e contra as desigualdades. Além disso, com nossas atividades buscamos mobilizar tanto as pessoas idosas quanto as pessoas mais jovens sobre o seu próprio processo de envelhecimento. Assim, é possível uma reflexão sobre as razões pelas quais os preconceitos e os estigmas surgem, não só em relação às diferentes formas de expressão da sexualidade, mas também com o próprio envelhecimento em si.

NM: Qual a expectativa para o futuro da EternamenteSOU? Há novos projetos?

Milton: Em relação a novos projetos, além da busca incessante por uma sede para a ONG, estamos trabalhando para o lançamento do programa de apadrinhamento. Sabemos que um dos maiores desafios para o envelhecimento de pessoas LGBT pode ser a solidão. Estudos mostram que essas pessoas têm maiores chances de estarem morando sozinhas, de não terem filhos, de não serem casadas e de não terem ninguém para chamar em caso de alguma emergência. Por isso, e inspirados em ideias de ONGs dos Estados Unidos e da Inglaterra, pensamos em criar essa ação.

NM: Como vai funcionar o apadrinhamento?

Milton: Iremos mapear pessoas idosas LGBT em condições de solidão e de isolamento que queiram receber a visita regular de um padrinho da ONG. Essa pessoa não será um cuidador, mas auxiliará em suas visitas semanais a aumentar o senso de pertencimento à comunidade que muitos podem ter perdido. E também essa ação pode auxiliar os próprios padrinhos a repensarem no sue próprio processo de envelhecimento, através da troca intergeracional.

Saiba mais sobre o trabalho da EternamenteSOU no site www.eternamentesou.org. (Katia Brito / Fotos: Reprodução Facebook)

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